5 de set. de 2016

overdose falha de uma lucidez sonâmbula..

Como lidar com a violência?
Como lidar com o tráfico de drogas? com a polícia e com uma máquina pública ineficiente?
Como lidar com a corrupção? com a ganância e a crueldade? com o dinheiro?


As drogas não são culpadas pela violência. elas apenas a financiam.
geram lucros à quem está no topo desta grande pirâmide.
sua base é sub-humana.
é a fome, a dor, a morte-viva.

A guerra dá dinheiro.
dá status; poder.

A linha de frente se mata e não sabe (ou não quer saber) dos por quês.

Enquanto isso fingimos que isso não existe.
Criamos um mundo a parte para nossos filhos e tocamos nossas vidas com a fé de que ele é real até o próximo arrastão. até o próximo latrocínio. até a próxima ação desastrosa da polícia.

O estalar das balas é real. Não em minha casa; mas bem perto. Apenas a uma distância suficiente para que eu não ouça. Para que não dê pra sentir a fome e o sofrimento dos nossos flagelados.


A polícia militar é apenas faixada. São criminosos tão cruéis quanto quem combatem.
seguem suas leis, suas doutrinas e mandamentos sempre em busca do que o sistema impôe: O TER.


Ninguém hoje em dia faz prova para a polícia militar por orgulho a instituição. Muito menos pelo dinheiro.
É pelo poder mesmo. Pelo porte de arma. Pelo "acima da lei". Pela carteirada e, principalmente, pela grana.
Generalizações a parte, mas um soldado depois de formado na academia de polícia se vê em um grande dilema: seguir as leis do país e defender a população, arriscando sua vida em troca de alguns trocados ou seguir as leis paralelas e ganhar o que realmente deveria por correr tanto risco.


Assim o sistema criou esta coorporação de merda para defender com as mesmas armas, diga-se fora das leis, seu interesse.


o pior é quando crê-mos nas mentiras que criamos (ou que nos criam).
é o caso.




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O arrêgo do baile não foi pago. Queriam cinquenta mil enquanto o movimento só pagaria vinte.
Os frequentadores/usuários/viciados nada sabiam. "Apenas" estavam lá para financiar a guerra.

Desta vez nós participamos da guerra.

E Aquela velha história contada nos noticiários, que vezes não nos importamos, aconteceu.
A polícia atira pra matar. Sem diferenciar o vendedor de cerveja, o dono do bar, o playboy, o viciado em crack, as dançarinas, o trabalhador, a corôa que vende churrasquinho e o traficante.

Os traficantes revidam da mesma forma.

CORRERIA!!

Alguém foi pisoteado, mas nem ligo. Minha angústia tornou-se pânico e agora corro sem direção. Seguindo o grande fluxo no beco estreito.

De repente um pequeno portão se abre e já estou lá dentro. Acolhem-me receosos. Não há fala. Ninguém se conhece. Ninguém se enxerga.


-traz o bico! traz, traz, traz!!! - ouço lá fora.


E os tiros soam mais altos. Parecem vindos de cima das lages. Indo para elas. Do meu lado.
Sempre ouvi que o estalar não é perigoso. Apenas os zunidos. Isto quer dizer que os projéteis passaram perto.
Ouvi a todo instante.


BUUUUUMMMMMMMMMMMMMMM!

Granadas!

Gritaria.


BUMMMMM, BUMMMMMMMM, BUMMMMMMMMMMMMM!!!


-"Muniçããããoooo!!! TRAZ!"

-"Vem, vem, vem, vem, vemmmmm fiel!"

-"Vai! Vai, mete o pé. VAI VAI VAI!!"

PÁ, PÁ, PÁ, PÁ, PÁPÁPÁPÁPAÁPÁPÁPA´PAÁPÁPÁPÁPAAPA´PÁP´´Á... BUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUMMMMMMMMMM




Não sei o que fazer. Rezo e canto em pensamento para acalmar-me. Não há efeito.
E o efeito do que usei traz ainda mais dor, pânico, aflição.


As crianças deitadas no chão observam tudo. Parecem acostumadas com algo que não deveria ser normal. Eu não. Duas horas depois ainda tenho pavor a cada tiro, explosão e "bota a cara".

Imagino como elas crescerão tendo isso como rotina. Imagino o moleque que aparentava uns 12 anos destemido a procura de celulares e carteiras no meio da guerra. Tendo como heróis os moleques de 16 anos que portavam fuzis e trocavam tiros com os bandidos.

Os bandidos que mataram seu pai pelas costas tempos atrás alegando seu envolvimento com o tráfico.
Verdade ou não ele foi morto, suponho que na covardia, e seu filho, ainda criança, observando tudo da praça que brincava descalso.

Hoje ele quer entrar para o movimento.
Muitos outros também.
Ele quer ser bandido. Quer matar bandido. Porque pra ele, o bandido é a nossa polícia. A mesma que estapeou sua cara aos onze anos fazendo-lhe entender por quê a comunidade a odiava tanto. Quer colocar para fora toda essa dor que carrega desde a infância. Por ter que ficar deitado de baixo da cama sempre que houvesse confronto. Por conviver com a miséria, a violência e principalmente a falta de valores. A falta de expectativas. Seu sonho é ter um tênis da nike e uma blusa da seleção. Quer extravasar no gatilho do seu fuzil todas as lágrimas que lhe obrigaram a chorar. Todas as que conteve. Toda a esperança que lhe roubaram.


As quatro horas que entrei sem permissão em suas vidas, em sua casa, deram-me ainda mais admiração e respeito.
Foram quatro horas que senti sua dor. sua fome. sua miséria.

A violência nua e crua incentivada por imbecis como wagner montes e que não damos atenção.

Às sete e quinze da manhã deste sábado, minutos depois da retirada da polícia, pegamos o trem para casa, sujos, suados e cheios de lama, julgados pelos olhares de condenação e pena dos trabalhadores.



Aos bandidos mais fracos, fica o aviso: Semana que vem queremos os cinquenta mil.
Aos mais fortes: Não compartilhamos nossos lucros com vermes.
À mim: Chega!

e ponto final.




Bruno Pereira Pires.
Sábado, 08-11-08 18:33

vivo, com saúde e medo.

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