
Debaixo daquela velha árvore torcida sentado no banquinho de tronco rústico o vi pela primeira vez.
Era outono e as folhas caídas no chão e outras tantas secas nos galhos misturavam-se com a brisa daquele final de tarde entoando uma sinfonia depressiva em minha mente.
Sempre fui um menino triste e solitário, minha timidez era apenas o agravante. Seu sorriso gracioso e sua felicidade faziam-me viajar para outras terras. Terras onde não haviam pessoas desgostosas da vida tampouco pais que espancavam seus filhos.
Seus olhos azuis, ainda lembro, ensinaram-me que o mundo não era tão injusto e que a morte não é a única forma de reconhecimento.
Fui feliz!

Por mais desgraçada que fosse minha vida agora meu companheiro abraçáva-me trazendo paz.
Jamais acreditei no amor.
Hoje o Semeio.
Meus olhos fundos sorriem levando embora aquela tristeza evidente.
Eu Aceito! Quero o mundo, quero à ti, meu amor!
Esse homem aqui agora tem planos. Escrevo sobre a liberdade, sobre a nova cidade. Aprendi a não mais ter que mentir.
Chico fumava. Se declarava a qualquer momento. Eu o admirava.
Eu sem o Chico sou ninguém. Ele sem mim é o Chico.
Minha busca havia terminado. Encontrei o que mais procurava nesta vida. Ele não...
Chico buscava algo que nem ele sabia. Quando falava, todos o ouviam, fosse no bar da esquina, no teatro ou na vida boêmia que levara.
Resolvi estudar música. Chico já a dominava bem e agora pintava. Lembro-me de um dia em que ele esculpiu-me em barro.
Nossa casinha era cada vez mais visitada. Conheci muitas pessoas importantes do Rio de Janeiro. Muitas outras o Chico não quis que eu conhecesse.
Alguns dias Chico não voltava. Em outros, voltava com amigas e amigos do teatro. Os amigos que ele mais gostava.
Certas vezes ele dizia que iria fazer um extra e eu ficava três, quatro dias fumando na janela à sua espera. Ainda assim quando ele voltava, era o mais carinhoso dos homens.
Agora eu amava o Chico mais que tudo. Ele também se amava mas não mais à mim.
Esqueci-me das vezes que ele me falara sussurrando que se orgulhava de mim.
Mais tarde, realmente, fui entender que ele havia feito muito bem a sua parte.
Um dia fiquei uma semana esperando-o na janela. Ele não apareceu.
Ninguém tinha suas notícias.
Fui no teatro, nos botequins, nos puteiros, na polícia e ninguém sabia do Chico.
Chorei.

Gritei para o porta-retratos que ele não prestava.
Que ele nunca mudaria.
Sofri.
Eu nunca quis entender isso. Chico não era meu. Não era do teatro, da música. Não era da cachaça, das putas.
Chico era do mundo mas fez o mundo ser dele.
E isso ele fez muito bem.
Meu Francisco, morto, agora lhe entendo.
Você não matou-se como fora dito nos jornais. Não foi engolido pelo vício, como disseram os amigos.
Seu rio desaguou e só...
Sempre o amarei como ele amou à todos: incondicionalmente.
Fico feliz ao ter certeza de que ele apenas foi levar sua alegria à outros lugares.
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